Os Reis do Espaço

29-01-2014 12:14

“Os Reis do Espaço”

 

A Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (designada ao longo do texto como PHDA), atinge 3 a 6% da população em idade escolar e em mais de metade dos casos persiste na idade adulta, provocando desde o início, graves problemas interpessoais e emocionais para estas pessoas. As pessoas portadoras deste transtorno apresentam maiores dificuldades em controlar os seus movimentos, impulsividade e atenção, com prejuízo no desempenho escolar e no relacionamento interpessoal, bem como problemas emocionais que podem persistir ao longo da vida. De todas as perturbações do desenvolvimento, esta é certamente uma das perturbações para a qual todas as pessoas têm uma opinião. Para desespero dos pais, o PHDA é erradamente associado a crianças malcriadas, ou seja, para além de terem que lidar com o acréscimo de problemas e cansaço de um filho com PHDA, ainda se confrontam com todas as questões filosóficas de uma sociedade mais permissiva, um estilo de vida mais agitado ou simplesmente de estarem a falhar no seu papel de educadores. Nada disto é verdade e o PHDA tem sido objecto de estudo desde os anos 30.

A característica essencial desta Perturbação é um padrão persistente de desatenção e/ou hiperactividade, mais frequente e severo do que aquele tipicamente observado em indivíduos em nível equivalente de desenvolvimento e alguns desses sintomas têm que ter sido observados antes dos 7 anos de idade. No entanto, o diagnóstico nem sempre é realizado antes do início do período escolar, em que as características das crianças com PHDA se tornam mais evidentes e perceptivas, pela necessidade crescente de concentração para que ocorra aprendizagem.

O PHDA na infância, dos 6 aos 10 anos, em geral associa-se a dificuldades na escola e no relacionamento com as outras crianças, pais e professores. As pessoas não conseguem realizar os vários projectos que planeiam e são consideradas "despassaradas", "vivendo no mundo da lua" e com o "bicho-carpinteiro". Não possuem a capacidade de planear com antecedência, focalizar a atenção selectivamente e organizar respostas rápidas. Muitas crianças têm um comportamento desafiador e opositivo associado, com dificuldade em respeitar limites e enfrentam activamente os adultos. O excesso de movimentos da criança, também surge como um problema que implica a necessidade de vigilância constante. A criança hiperactiva tem mais energia e menos necessidade de sono e repouso. Geralmente os hiperactivos, quando bebés, mexem-se muito durante o sono, são desajeitados quando começam a andar, por vezes apresentam um atraso na fala e trocam as letras por um tempo maior que o normal, porém apenas esses sintomas não são suficientes para a definição do quadro de PHDA. É na escola que a criança co PHDA vai demonstrar as características que definem a perturbação como: dificuldade em concentrar-se; não conseguir ficar envolvida numa só coisa e movimentar-se e conversar constantemente. Em geral, é desorganizada, distraída, esquecida, não gosta de limites, possui dificuldades em completar tarefas, e nos relacionamentos com os colegas. Os avanços farmacológicos permitem-nos controlar ou eliminar os sintomas motores inerentes ao PHDA, mas o mesmo não acontece com os da esfera emocional. É fundamental que se possa compreender como é que a criança se percebe num corpo que não consegue controlar, na medida em que o corpo e o esquema corporal influenciam decisivamente na aquisição da identidade. A satisfação ou insatisfação com o corpo está relacionada com o nosso autoconceito. Os dois elementos básicos para a formação do autoconceito são a auto-imagem e a auto-estima, os quais são apreendidos através da experiência, principalmente a partir da interacção social, que geralmente é dificultada nas crianças com PHDA. O autoconceito é basicamente a percepção que a pessoa tem de si mesma, informações adquiridas sobre uma série de factores externos e internos à própria pessoa. O sentimento de valor que acompanha essa percepção constitui-se na auto-estima. Ora uma criança com PHDA, com relações dificultadas quer com a família, quer na escola e nos restantes ambientes ao seu redor, tem grandes probabilidades de desenvolver um autoconceito negativo, e consequentemente uma baixa auto-estima. As suas relações são muito baseadas na repreensão por movimentos, impulsos e descuidos que a criança não consegue evitar. É essencial que as pessoas que lidam com crianças com PHDA estejam bem informadas sobre esta perturbação, tenham uma actuação concertada, com mais motivação e menos repressão, protegendo o seu desgaste emocional.

 

Actualmente considera-se que o PHDA se subdivide em três tipos:

1) PHDA com predomínio de sintomas de desatenção - predominantemente desatentos;

2) PHDA com predomínio de sintomas de hiperactividade/impulsividade. Crianças com este tipo são mais agressivas e mais rejeitadas pelos colegas. São crianças difíceis. Apesar da alteração na conduta e no comportamento, são capazes de obter bons resultados escolares. Têm um comportamento alterado, mas aprendizagem normal - predominantemente hiperactivos;

3) PHDA combinado. Crianças com este tipo têm maior prejuízo no funcionamento global. Apresentam alterações no comportamento e na aprendizagem - hiperactivos e desatentos.

O primeiro subtipo de PHDA (predominantemente desatento) apresenta como características marcantes, a facilidade de distracção com devaneios frequentes (imaginação "viajante", são conhecidos como distraídos e vivem a imaginar coisas), desorganização, procrastinação, esquecimento e letargia/fadiga. Ao contrário do que ocorre nos outros subtipos, não são comuns traços de hiperactividade, impulsividade e condutas desadequadas. O PHDA-I geralmente é diagnosticado mais tardiamente que os outros subtipos de PHDA, provavelmente porque a falta de sintomas de hiperactividade torna a doença mais discreta. Pais e professores podem interpretar de forma errada as atitudes e comportamentos de uma criança com PHDA-I e muitas vezes fazem repreensões inadequadas, como: "você é irresponsável", "você é desorganizado", "você não se esforça", etc. Algumas crianças acabam por entender que são diferentes de alguma forma, mas, infelizmente, isso não impede que elas aceitem as críticas indevidas, criando uma auto-imagem negativa e, pior ainda, auto-alimentada. Alguns especialistas, como o Dr. Russell Barkley, argumentam que PHDA-I (predominantemente desatento) é tão diferente do PHDA tradicional que deveria ser considerada uma desordem distinta. No PHDA-I, não se verificam desordens de conduta e comportamentos de alto risco, e as respostas são bastante diferentes a medicamentos estimulantes.

 

Este transtorno é considerado como um distúrbio biopsicossocial, na medida em que parece haver fortes factores genéticos, biológicos, sociais e vivenciais, que contribuem para a intensificação do problema. Actualmente é consensual que não existe apenas um factor etiológico envolvido no PHDA, e a multiplicidade de sintomas, sugere que vários profissionais devem estar envolvidos no diagnóstico e tratamento (médico, psicólogo, pedagogo).

Complicações perinatais, ingestão de álcool, utilização de drogas durante a gravidez, infecção do Sistema Nervoso Central na primeira infância e efeitos colaterais de certas medicações, predispõem a défices de atenção. Causas ambientais, tais como, desvantagem social, famílias numerosas e superlotação também já foram apontadas, embora sejam quase sempre consideradas como factores que levam à manifestação da doença, mas não como a causa.

A incidência é maior em rapazes, do que em raparigas, chegando a 80% dos casos, e por esse motivo, alguns autores têm investigado a sua relação à hormona masculina, a testosterona.

De acordo com Benczik, (2000), a região frontal do cérebro (Lobo Frontal) parece ser a responsável pela inibição comportamental, pela capacidade de prestar atenção, pelo autocontrole e pela capacidade de planeamento. Neste sentido, alguns autores consideram que existe um comprometimento desta área do cérebro nesta perturbação. Também Russel (2002) considera que o PHDA é uma alteração química que afecta o lobo frontal do cérebro e prejudica a produção de substâncias necessárias para a concentração. Estudos recentes indicam que a falha não se processa ao nível da selecção dos estímulos sensoriais (atenção selectiva) mas sim na inibição das respostas motoras impulsivas a esses estímulos. Assim a questão que se coloca nas crianças/adolescentes com PHDA não é a de uma falha na atenção mas sim no mecanismo inibitório. As “rédeas cerebrais inibitórias” falham na sua função de controlo comportamental, que deveria existir por via de uma capacidade de inibição sustentada, promovendo a presença de comportamentos hiperactivos/impulsivos. Um estudo realizado na universidade de Kentucky colocou várias crianças com e sem PHDA a verem televisão, primeiro num ambiente totalmente isento de estímulos externos, no qual ambas as crianças foram capazes de responder às perguntas sobre o programa que estavam a ver. Numa segunda fase, colocaram uma série de brinquedos no mesmo local e verificaram que as crianças com PHDA tiveram maior dificuldade em focalizar a sua atenção no programa de televisão e foram menos capazes de responder às perguntas que lhes foram colocadas. Considera-se assim, que o PHDA se caracteriza sobretudo por um défice básico do comportamento inibitório, que promove a hiperactividade, impulsividade e desatenção.

Este transtorno de conduta tem assim uma origem neurológica, embora não seja possível demonstrar a lesão, uma vez que a questão não se verifica ao nível dos neurónios, mas sim nos neurotransmissores. Parece existir uma alteração no funcionamento da Dopamina, neurotransmissor responsável pelo controle motor e atenção. Elevando a produção de dopamina, que é exactamente o que certos medicamentos fazem, permitimos que a pessoa se organize melhor, consiga dirigir a sua atenção de forma sustentada e planeie melhor os seus actos, reagindo de forma menos impulsiva.

A Dopamina em défice nos circuitos responsáveis pelas funções executivas, não permite que a pessoa se organize de forma eficiente, consiga dirigir a sua atenção de forma sustentada e planeie melhor os seus actos, reagindo de forma menos impulsiva. A razão pela qual as pessoas com PHDA têm menor quantidade de dopamina nos lobos pré-frontais tem sido ligada a questões genéticas. Recentemente surgido também a hipótese de uma possível alteração nos canais de potássio.

A medicação utilizada no tratamento do PHDA, é o Metilfenidato, utilizado nos EUA há mais de 60 anos, com acção directa sobre o sistema nervoso. O que o Metilfenidato faz é repor valores normais de dopamina, para que as células nervosas responsáveis pela concentração possam funcionar.

 

Muitos pais demoram muito para procurar ajuda, ou não aceitam um diagnóstico de hiperactivo, por considerarem que faz parte da idade, que todas as crianças são agitadas e que isso passa. Porém quando o problema demora a ser diagnosticado, o hiperactivo, a partir da puberdade, pode procurar drogas, álcool e praticar agressões sexuais, como forma de superar as suas dificuldades em adaptar-se à vida social. O diagnóstico de um especialista é fundamental, porque nem sempre aquela criança agitada é hiperactiva. A hiperactividade pode ser confundida com outras patologias ou mesmo vir em conjunto com outras perturbações do desenvolvimento, tais como: autismo, deficiência auditiva, dislexia ou deficiência mental, que podem tornar o diagnóstico difícil, tendo, portanto que ser realizado por um profissional especializado. Muitos pais procuram várias especialidades para fazer um diagnóstico, e muitas vezes não conseguem chegar a um consenso. O diagnóstico deve ser realizado por um psiquiatra, que deverá fazer uma anamnese com os pais e as pessoas do seu convívio, como professores, empregadas e terapeutas. Um diagnóstico e tratamento correcto podem ajudar a criança a diminuir o insucesso escolar, aumentar a sua concentração, evitar depressões e superar problemas de relacionamento.

O diagnóstico de PHDA pode ser difícil, pois os sintomas demonstrados pelos pacientes podem ocorrer não só devido ao PHDA, como também a uma série de problemas neurológicos, psiquiátricos, psicológicos e sociais. Normalmente o diagnóstico começa pela eliminação de outras patologias ou problemas sócio/ambientais, que possam causar os sintomas. Além disso, os sintomas devem, obrigatoriamente trazer algum tipo de dificuldade na realização de tarefas ou devem causar algum tipo de impedimento para a realização das mesmas.

A idade e a forma como surgem os sintomas também são importantes, e devem ser investigados, já que no PHDA, a maioria dos sintomas está presente na vida da pessoa há muito tempo, normalmente desde a infância. Neste sentido, por se tratar de um transtorno de natureza crónica, os sintomas de dificuldade de atenção/concentração ou hiperactividade semelhantes ao PHDA mas que apareçam de repente, têm uma grande probabilidade de não serem PHDA. Para que se considere PHDA, os sintomas devem manifestar-se em vários ambientes (escola, casa, viagens, etc..). Os sintomas que só aparecem num ambiente, como por exemplo, apenas em casa ou na escola, devem ser investigados com mais cuidado, para se verificar se não são apenas de origem psicológica.

As crianças com PHDA têm uma inteligência normal. Testes de inteligência tendem a produzir "falsos positivos" para atraso de desenvolvimento intelectual em crianças com PHDA, devido à importância da atenção/concentração na realização desses testes. Em casos onde há dúvidas sobre o diagnóstico de PHDA, pode ser interessante a realização de uma experiência medicamentosa em paralelo com a observação comportamental e aplicação de testes de inteligência. Neste caso a criança é testada e observada antes de ser medicada e depois de 6 a 8 semanas de ter iniciado a medicação, verificando-se a alteração ou não de sintomas. Na maior parte dos casos de PHDA, há um aumento significativo na pontuação dos testes de inteligência e uma diminuição dos sintomas observados.

 

Ana Galhardo Simões