Nascer de Novo

Nascer de Novo
Terapia de uma condição Intra-uterina
Maria de Melo Azevedo
Distúrbios ocorridos no período intra-uterino comprometem todo o desenvolvimento posterior da personalidade do indivíduo. Uma vivência harmónica desse momento da vida, é essencial para o desenvolvimento saudável da personalidade. Stress nessa fase provoca uma situação psicótica, uma psicose deflagrada ou um núcleo psicótico. Se a condição stressante ocorre na fase embrionária, leva à condição autista, gravíssima e até hoje praticamente incurável, embora possa melhorar. Não temos ainda nenhuma metodologia eficiente que possa de facto reverter essa situação, que Federico Navarro chama de medo celular, uma contracção a nível celular, que atinge todo o organismo.
O feto possui maiores recursos do que o embrião para responder a situações ameaçadoras. Já existem órgãos de choque. O feto já consegue "segurar" o medo, a ameaça, contraindo-se principalmente ao nível do nariz, ouvidos e olhos, o primeiro nível Reichiano. Navarro chama esta reacção de medo fetal. A marca dessa vivência configura a condição de núcleo psicótico a qual poderá, posteriormente, ser compensada ou encoberta por uma caracterialidade. Situações existenciais stressantes em períodos posteriores da vida poderão fazer "explodir", ou descompensar, o núcleo psicótico, deflagrando um surto psicótico.
A condição do medo fetal, psicose ou núcleo psicótico, é passível de tratamento, visando um reequilíbrio das funções perturbadas, principalmente a recuperação da funcionalidade ocular. Os quatro primeiros actings (movimentos, "exercícios") da metodologia da vegetoterapia pós-Reichiana dedica-se exactamente a este trabalho de recuperação da funcionalidade do primeiro nível. É, necessariamente, desse ponto que iniciamos o processo terapêutico. Dessa forma, o trabalho começa a partir da base, fortalecendo o primeiro chão sobre o qual será montada a caracterialidade. Em outras palavras, esse primeiro chão é a própria identidade, o "EU".
A partir do terceiro mês de gestação, já se inicia a formação do "EU”, que será concluída no período pós-natal, se tudo tiver corrido bem para a criança. No período fetal, o nariz, os ouvidos e os olhos começam a funcionar. Mas a plena maturidade de suas funções ocorrem somente após o desmame, e mesmo assim apenas se as condições de vida até esse momento tiverem sido satisfatórias. Caso contrário, alguma disfunção permanecerá, com as devidas consequências na personalidade, ou seja, algum grau de fragilidade do "EU", da identidade. Na vegetoterapia caracteroanalítica, a recuperação dessas disfunções é feita através dos quatro primeiros actings dos olhos e boca, pelo menos. O trabalho sobre o bloqueio do pescoço e peito também são essenciais.
O trabalho de desbloqueio ocular através da metodologia da vegetoterapia, parece-me eficiente para a recuperação das funções do organismo que sofreram prejuízos a partir do nascimento. No entanto, ainda falta desenvolver uma metodologia que consiga atingir mais profundamente a fase intra-uterina. Para isso, vem sendo utilizada um técnica chamada Concha, que consiste em colocar as mãos sobre os ouvidos do paciente, de modo a filtrar sons externos. O objectivo dessa técnica é submeter o paciente a um estímulo sonoro que evoque a situação intra-uterina, onde o som chega aos ouvidos do feto filtrado pelo líquido amniótico. Outro recurso é encaminhar o paciente para terapias convergentes, como a homeopatia, e a Orelha Electrónica de Tomatis. É preciso, no entanto, que a vegetoterapia encontre meios próprios para trabalhar melhor a condição intra-uterina. Nesse sentido, venho tentando desenvolver procedimentos que desejo compartilhar nesse encontro.
Vale lembrar que o primeiro acting da metodologia da vegetoterapia caracteroanalítica trabalha o bloqueio do primeiro nível Reichiano, que ocorre no nascimento e nos dez dias subsequentes. A vegetoterapia entende que esse período ainda faz parte da condição intra-uterina. Neste acting, o paciente é convidado a fitar uma fonte luminosa proveniente de uma lanterna de bolso, colocada a aproximadamente 25cm de seus olhos. A fonte luminosa estimula directamente o músculo ciliar e a epífise, impedindo a produção de melatonina. Também activa a hipófise e toda a actividade cortical. O objectivo desse impacto luminoso é evocar a experiência do nascimento, quando a criança é exposta à luz pela primeira vez. A reacção do paciente a essa exposição dará sinais de como foi sua experiência em todo o processo do nascimento. Se tiver ocorrido em circunstâncias ideais, essa exposição à luz não será estressante. Se a reacção for de medo ou de pânico, isto indicará que a criança sofreu algum tipo de frustração, que provocou sensações de medo ou angústia de abandono. As reacções do paciente neste acting trazem à tona toda a gama de circunstâncias e problemas que viveu na situação de nascimento e primeiros dez dias de vida.
Após a verbalização deste acting, passa-se à fase seguinte, que é o primeiro acting da boca. Pede-se ao paciente que permaneça de boca aberta, na posição típica da vegetoterapia, deitado de costas, com os pés apoiados no colchão. Estes dois actings são adequados e suficientes para reequilibrar as funções energéticas desorganizadas pelo nascimento ou pelos dez primeiros dias traumáticos. No entanto, falta uma metodologia para o trabalho das disfunções anteriores ao nascimento.
Trabalhar a situação pré-natal implica uma tentativa de reequilibrar o temperamento. Na medida em que é um dado constitucional da personalidade, o temperamento é menos acessível do que o carácter. Decorre de vivências primitivas, sob predomínio reptiliano e límbico. Na fase temperamental, o organismo constrói mecanismos de defesa de natureza fundamentalmente hormonal e neurovegetativa. O carácter, por sua vez, é constituído de defesas neuromusculares, provenientes de situações existenciais ocorridas após o amadurecimento cortical, por volta dos 9 ou 10 meses de vida após o nascimento.
Embora difícil, o trabalho sobre o temperamento é essencial para se caminhar em direcção à maturidade caracterial. Ou seja, é necessário conseguir reequilibrar os bloqueios energéticos ocorridos na vida pré-natal, na fase oral e desmame, antes de se tentar os desbloqueios de níveis corporais que se fizeram posteriormente. Se a terapia ignorar, ou não trabalhar suficientemente estes bloqueios primitivos, há o risco de explosão do núcleo psicótico, ou de sua somatização por meio da emergência de doenças graves. Não se deve trabalhar o carácter do "EU" sem antes ajudar o indivíduo a fortalecer este "EU". Em outras palavras, trabalhar a couraça muscular, as defesas caracterológicas, sem antes equilibrar o núcleo psicótico., coloca em risco toda a estrutura da personalidade. O carácter fundamentado numa identidade deficiente, ou seja, um carácter que dá cobertura a um núcleo psicótico é um edifício construído sobre a areia. Trabalhar neste edifício sem antes reforçar suas bases é correr o risco de desmoronamento, por explosão do núcleo psicótico ou por somatização deste núcleo, com consequente enrijecimento das defesas caracterológicas.
Descreverei, a seguir, como venho trabalhando as disfunções ocorridas na situação intra-uterina.
Além de utilizar a técnica da Concha de uma maneira diferente, estou desenvolvendo outras formas de lidar com a mesma situação que tem por objectivo criar um campo energético adequado que possibilite ao paciente reviver situações ocorridas no período uterino de sua vida, de modo a tentar reestruturar ou reequilibrar as funções prejudicadas pelas frustrações desse período.
Não uso a técnica da Concha apenas para diagnosticar as condições intra-uterinas que ocorreram na realidade, como normalmente se faz na vegetoterapia. Uso-a também como tratamento, no sentido de oferecer na relação terapêutica, uma condição energética mais adequada, que corrija as condições frustrantes de facto ocorridas. Isso implica usá-la por mais tempo durante a terapia, e adequar o tipo de toque, força no toque, e forma de tocar, à necessidade daquele paciente específico que esteja sendo trabalhado no momento. No caso, por exemplo, de um paciente cujo nascimento tenha sido induzido por fórceps, uma pressão mais forte nas mãos em Concha, num certo momento, poderá evocar forte estado de angústia. Numa circunstância deste tipo, repito inúmeras vezes todo o procedimento até que a sensação de angústia se tenha transformado numa sensação agradável. Esse processo poderá tomar muitas sessões. Considero isso um sinal de que a situação terapêutica terá conseguido oferecer, energeticamente, um novo útero, uma matriz energética capaz de modificar a condição energética do paciente. Além disso, desenvolvi determinada forma de massagem que ajuda a trabalhar a situação intra-uterina e outros recursos técnicos, cuja descrição deixo para outra oportunidade.
Para trabalhar a condição intra-uterina, o mais importante é a qualidade e o tipo de clima que se consiga criar ao longo da sessão terapêutica. É que a condição de um núcleo psicótico decorre de uma frustração fetal. Sempre, nesse caso, o feto foi recebido por um útero frio, pouco acolhedor, tomado de ódio, rejeitador. Em linguagem energética, pode-se dizer que esse útero oferecia um campo energético deficiente, hiporgonótico ou com excesso de D.OR. Para tentar reverter essa condição, a situação terapêutica deve oferecer, antes de tudo, um campo energético diferente deste original, portanto caloroso, amoroso, denso em energia OR e, principalmente, com o mínimo possível de D.OR. O trabalho da situação intra-uterina é essencialmente energético. Um exemplo ajuda a esclarecer esses conceitos:
João chega à sessão dizendo que está mal. Vejo que sua pele tem uma coloração esverdeada. Quase não consegue falar. Diz apenas que está muito cansado e decidido a passar uma semana num spa, que já conhece e de que gosta muito. Faz esforço enorme para pronunciar as palavras. Mal consegue sustentar-se sentado na cadeira. Evita focar qualquer coisa com os olhos. Convido-o a deitar-se sobre o colchão. Sua respiração é fraca. Abro as janelas para aumentar a circulação de ar e melhorar a condição de OR no ambiente. Desço as cortinas para diminuir claridade. Ele está regredido, claramente não-nascido energeticamente, e a claridade forte o incomoda. Busca a penumbra uterina. Tira a roupa e deita-se. Cubro-o com um lençol de textura agradável, que ele aprecia, para dar-lhe aconchego e melhorar a sensação de falta de limite do corpo. Sento-me atrás de sua cabeça, e preparo-me para tocá-lo. Antes disso, no entanto, volto-me para mim, faço contacto comigo mesma. Desde que João chegou, permiti-me entrar em ressonância energética com ele. Captei sua pulsação energética fraca e curta. Ao preparar-me para tocá-lo, entro em contacto mais profundo comigo mesma. Um pouco como perguntar-me se estou preparada para "engravidar-me" deste ser tão sofrido, tão contraído. Aproximo devagar minhas mãos, como para pedir licença, e o toco suavemente no rosto. Meu peito se aperta, sinto uma dor na garganta que vai aumentando. É um aperto, como se fosse um nó. Coloco minhas mãos sob seu pescoço, de modo a dar-lhe apoio e me permito ficar por alguns instantes nessa posição, sentindo-o e sentindo a mim mesma. De repente, sinto algo como se um peso enorme caísse sobre mim. Enquanto isso, a dor na minha garganta parece resvalar-se até o estômago, queimando o caminho que percorre. Tudo isso não chega a ser um forte sofrimento para mim. Quando a dor é do outro e a gente se permite compartilhá-la, o sofrimento fica tolerável.
Aproximando meu rosto ao seu, pergunto-lhe, em voz baixa, se está sentindo algo na garganta e no estômago. Ele responde que sente, há dias, uma dor na garganta e uma gastrite, que o queima e o obriga a comer a cada duas horas. Nesse momento, entre em ressonância energética com o campo dele, e estamos ambos presos no orgônio da morte, o D.OR. Acredito, no entanto, que tenho a chave da porta de saída. Se conseguir meu objectivo de entrar em ressonância com a pulsação dele e, assim, aos poucos ampliar essa pulsação, sairemos os dois. Se não, sairei sozinha, retornando à minha pulsação original. Vou até ele com a intenção de trazê-lo para mim, mais próximo de minha pulsação, para uma maior vibração. No momento inicial, deixo-me ficar na pulsação dele. Busco, então, uma saída para mim. Saio à frente. Intuitivamente, começo a cantar um mantra budista, chamado mantra da purificação de venenos da mente-coração. Dou-me conta de como esse mantra é absolutamente adequado para a situação, e ponho-me a cantá-lo em voz baixa, para nós dois. O mantra é melodioso, suave, parece uma canção de ninar. Enquanto canto, deixo a dor na minha garganta, antes "fechada", abrir-se e se exprimir. A dor, aos poucos, se transforma em imensa tristeza. Deixo a tristeza tomar conta de minha canção. Começo a sentir mais fortemente meu campo energético interpenetrando o dele, como se um só campo nos contivesse aos dois. A tristeza dele torna-se minha e a minha canção também é dele. Vivo por nós dois a tristeza que antes era só dele, até que ele se retome e possa também entristecer-se, como aconteceu em seguida.
Começo a bocejar. Os bocejos ficam cada vez mais profundos, mais relaxantes. Lágrimas escorrem de meus olhos, e começo a sair daquele campo energético opressor. João também começa a bocejar e a lacrimejar. Minha respiração segue o ritmo do mantra e se expande devagar, muito devagar. Não poderia mesmo ser mais rápida porque aquela queimação no estômago e a pressão na garganta freiam o movimento. Enquanto ocorrem essas sensações, essas emoções e essas transformações energéticas, continuava a fazer massagem em todo o corpo de João, a partir da cabeça. Quando há um núcleo psicótico forte, como acontece com João, o couro cabeludo sofre severas tensões. A massagem alivia essas tensões. Além disso, o trabalho nessas tensões da cabeça ajudam a desbloquear as tensões intra-uterinas e neo-natais. Nesse dia, dediquei-me mais do que habitualmente, a massajá-lo levemente da cabeça aos pés, como se o "lavasse" energeticamente. Minhas mãos, altamente energizadas nesse momento do processo, conseguia mobilizar a energia estagnada, o D.OR., e isso permitia que João respirasse mais profundamente, liberando seu diafragma. Após a massagem, sentei-me novamente atrás da cabeça de João e passei a usar a técnica da Concha por 20 minutos. Com o passar do tempo, minhas mãos começaram a pulsar espontaneamente. Mais tarde, João disse que o ritmo de pulsação de minhas mãos eram muito agradável para ele. Aos poucos, fui parando de cantar. Eu estava muito bem, inundada por uma sensação de paz. Apenas sentia forte sede. A pele de João readquiriu a coloração rosada e sua respiração tornou-se mais ampla. Ele começou a espreguiçar-se. Minhas mãos foram se afastando, lentamente. E toda eu me fui afastando, lentamente. Também me espreguicei. Reaproximei-me e perguntei-lhe se também sentia sede, como me parecia. Ele confirmou que sim. Disse-lhe que ambos precisávamos de um bom copo de água e fui buscá-lo, deixando-o deitado de lado, aconchegado ao lençol macio. Ele sentia-se muito bem, já tinha vontade e energia para falar. Contou-me, então, um sonho que tivera na noite anterior.
"Eu estava nascendo. Eu era um bebé pequeno, todo molhado. Acordei no meio da noite e não consegui mais dormir. Antes, havia sonhado com minha mãe, e depois, vi-me nascer. Eu sentia tudo o que o bebé sentia. Era uma coisa ruim, receio de entrar na vida. Sentia frio, e calor e estava molhado, com uma sensação desagradável de alguma coisa grudenta cobrindo meu corpo." Conta, então, que lembrava-se do sonho e da sensação desagradável da coisa grudenta que o cobria inteiro, no momento em que eu o alisava por todo o corpo. Veio-lhe a imagem de um gato lambendo o gatinho recém-nascido, o que o fez sentir-se mais aliviado."
Após esse trabalho, fiz o segundo acting da boca, pois considerei que o ardor no estômago e a necessidade de comer a cada duas horas indicavam que estava na hora de começar a integrar a funcionalidade oral. O segundo acting é o da amamentação. O mesmo foco de luz é colocado diante dos olhos do paciente. Desta vez, no entanto, ele não fica parado. Aproxima-se e se afasta do nariz, evocando o movimento da mãe que se aproxima e se afasta do bebé, e do olhar do bebé ao mamar, que foca ora o rosto da mãe, ora o bico do seio, alternadamente. Em seguida, pede-se ao paciente que faça com a boca o movimento de sucção, como se seus lábios buscassem o bico do seio materno.
João fez esse movimento ao longo de apenas oito minutos. Suspendi o acting assim que ele manifestou sinais de "satisfação", que identifiquei como o aparecimento de uma sensação de preguiça de continuar acompanhando o foco de luz, na verdade, preguiça de continuar sugando. Sobreveio uma sensação de relax, de sonolência gostosa. Tratava-se apenas de uma mamadinha mínima de recém-nascido, que mais precisava de contacto do que de alimento. O João recém-nascido precisava mais de certificar-se de que seu seio não lhe faltaria, ao contrário do que se passara por ocasião de seu nascimento real. João havia permanecido por muitos dias numa incubadora e a mãe dele, tomada por profunda depressão, não o amamentara. A nível energético, ele precisava integrar o segundo nível ao primeiro, integrar olhos e boca.
Foi uma sessão de nascimento energético. A mãe apenas o havia parido. Somente então João nascera energeticamente. Isso, no entanto, não aconteceu de um dia para outro. Até chegar esse dia, a terapia tinha percorrido um longo caminho preparatório. Houve o trabalho do primeiro acting, dos olhos e boca (ponto fixo e boca aberta). Quando João ficou energeticamente pronto para nascer, e nasceu, houve, em seguida, uma regressão à condição intra-uterina. Ao nascer, traumatizado pelas condições que encontrou no mundo externo, ele tenta voltar ao útero. Não consegue nascer energeticamente, fica no meio do caminho, e sua pulsação energética se paralisa. Isso explica a coloração esverdeada de sua pele, no dia em que chegou à sessão.
Na verdade, como estivesse muito bem na sessão anterior, fora inesperado para mim que João aparecesse assim à sessão seguinte. Segundo os preceitos da "bíblia" metodológica, ele "deveria" estar pronto para nascer, energeticamente já na sessão anterior. No entanto, o que eu presenciara ali, diante de meus olhos, era uma pessoa regredida a uma condição energética psicótica. Por isso, não hesitei em começar a sessão a partir do ponto em que o paciente se encontrava sob o ponto de vista energético, ou seja, regredido à situação intra-uterina.
Valem algumas considerações sobre os procedimentos usados nesta sessão. O contacto com o feto ainda no útero só pode dar-se através do campo energético. Isso exige que o terapeuta esteja bastante trabalhado, pessoalmente, de modo a conseguir identificar, diagnosticar a situação de campo que esteja acontecendo durante o trabalho. Esse diagnóstico depende muito de suas sensações de órgão, de quanto ele consiga estar em contacto com o seu próprio cerne, e de quanto este cerne esteja equilibrado, para que o contacto possa acontecer a partir do cerne, cerne a cerne, sem que ocorra em consequência disso desestruturação das defesas do carácter. Em outra linguagem, poderíamos dizer que, na sessão que descrevi, através da acção força do campo energético e, também, das técnicas, convidei o paciente a deixar-se perder em seu cerne, como na situação fetal, isto é, a reviver a experiência pré-natal. Isso significa que o paciente viveu uma experiência onde havia o predomínio energético do cérebro reptiliano, que o mergulhava no universo das sensações. Por outro lado, eu também me permitia mergulhar nas vivências reptilianas, sem, no entanto, em nenhum instante, perder-me do meu eixo límbico e também do cortical. Ou seja, eu não poderia dar-me ao luxo de psicotizar, de ficar reptiliana, pura e simplesmente perdida nas minhas sensações.
Isso significa que, nesse momento, o terapeuta terá que estar vivenciando um bom equilíbrio dos seus três cérebros, reptiliano, límbico e cortical. Num certo nível, tanto para mim, como para o paciente, só existia aquele mundo de sensações que nós dois vivenciávamos. Num outro, eu me dava conta, como nunca, do universo em torno de nós. Éramos não somente eu e ele, dois indivíduos, mas também dois seres humanos, vivendo a questão humana. Eu era sua terapeuta responsável por aquele processo, a pessoa adulta da relação naquele momento. Eu era o ego para nós dois, para que ele pudesse mergulhar no mundo do seu inconsciente. Eu era Ariadne que cuidava do fio que indicava a saída do labirinto, como no mito. Para que seja possível a um adulto revisitar a vida intra-uterina, regredir, é necessário uma reorganização do ego e não sua dissolução. Não se trata de psicotizar junto com o paciente, ou de psicotizar o paciente, mas, ao contrário, de buscar uma saúde maior, para ambos. Se o terapeuta se mantém integrado, o paciente poderá aguentar o medo da loucura, o retorno ao útero. Mas, neste momento, a organização egoica é especial. O córtex é soberano e, ao mesmo tempo, deixa-se suplantar docilmente pelo reptiliano. O carácter não se sente ameaçado e por isso cede, derrete-se docemente, permitindo que o cerne fique exposto, pulsante, vibrante. "É a necessidade "libertar-se" da actividade mental, com o intuito de reencontrar a unidade psicossomática", como diz Winnicott.
Cabe, também, um comentário a respeito do mantra budista no contexto da sessão acima descrita. Para mim, cada mantra possui uma vibração sonora específica, que estimula um determinado nível corporal Reichiano. O mantra mencionado neste trabalho, toca, estimula, e ajuda ao desbloqueio de todos os níveis corporais ao mesmo tempo e, portanto, promove uma sensação de integração, elemento essencial à condição intra-uterina. Além disso, como já foi mencionado, na vida fetal os sons já são percebidos, embora filtrados pelo líquido amniótico. As minhas mãos sobre os ouvidos de ”João” (técnica da Concha) tem, entre outras, a finalidade de filtrar o som, tentando reencontrar as condições intra-uterinas. A escolha dos sons no momento da sessão é importante para melhorar a circulação energética. Às vezes, uso a música de Mozart, que é um grande estimulador do cérebro reptiliano e límbico.
O conceito de ressonância de campo é importante para se trabalhar situações regressivas e merece uma discussão mais profunda do que me parece possível neste contexto. Também é fundamental a capacidade do terapeuta de entrar em ressonância energética com o paciente regredido, de ir até sua pulsação e aos poucos tentar trazê-lo a uma pulsação maior. Isso dá uma e têm sua função mas é preciso cuidado para que elas não atrapalhem o terapeuta e o tirem de seu centro de gravidade, que deve ser o seu cerne biológico e não sua superfície, seu carácter. O centro da relação terapêutica deve ser o indivíduo e não a técnica.
O trabalho que estou tentando desenvolver é essencialmente energético e exige que o terapeuta permaneça em contacto, consigo mesmo e com o paciente. Que seja, portanto, capaz de contactar suas sensações de órgão, pois esta é a chave, a luz que o guiará no processo todo. Para isso, é necessário que o terapeuta esteja suficientemente equilibrado em seu próprio cerne, na sua identidade. Só assim, poderá, por um instante, "perder-se" no paciente, entrar em ressonância com seu campo cheio de D.OR., sua pulsação mínima, sufocante, e conseguir reencontrar o cominho para si mesmo.
Isso não é essencialmente diferente do que ocorre numa boa gravidez, quando a mãe consegue viver a relação fusional sem confundir-se com o bebé, e sem, portanto, entrar em pânico pelo risco de psicotizar-se, e em consequência desse medo, impedir que seu bebé possa perder-se nela, como é o natural e necessário nessa fase, para que, no futuro, esteja mais apto a encontrar-se. A mãe é o campo energético do bebé, está a serviço dele por um tempo. E, na hora certa, se tiver uma identidade forte, não precisará apegar-se a ele, não tentará impedi-lo de deixá-la "esvaziada". Ela o deixará nascer verdadeiramente, como um ente único, próprio, com seu próprio campo, seu próprio e único ritmo de pulsação.
As técnicas utilizadas foram: massagem ao nível muscular, e ao nível energético, na aura, a Concha, e ainda o primeiro e o segundo acting da vegetoterapia caracteroanalítica. Acrescenta-se o cuidado com o ambiente tais como, circulação de ar, penumbra, temperatura, e até o acto de beber água ao final do processo, que, além de matar a sede, tem também a finalidade de ajudar a circulação energética.
Apresento este trabalho para promover um debate sobre este tema tão importante, e aproveito para convidar os colegas a continuar a pesquisa de métodos cada vez mais eficientes para que possamos afinal tocar esta que é uma das maiores dores humanas, a situação psicótica, descoberta ou coberta por uma caracterialidade.